Revista Alentejo

Joana Caspurro
Revista Alentejo, Maio de 2004

A musa inspiradora de Teresa Direitinho (geofísica de formação) foi a abóbada celeste, os seus mistérios e a sua ciência. (E o céu, como bem sabemos, é grande no Alentejo). Dela partiu para uma viagem bem mais terrestre, pelos “verdes anos”, seus, porventura, mas encarnados em personagens de ficção, de todos e de ninguém, portanto.

A temática surgiu óbvia: o crescimento, a adolescência, a sexualidade, a amizade e amor, a viagem ao encontro de quem somos e do lugar que ocupamos entre os outros. Tudo sob o pano de fundo da apaziguadora natureza alentejana, dos seus excessos térmicos e dos seus poéticos horizontes, por um lado; por outro, da húmida Londres, da académica Oxford, além de todo um bem ilustrado périplo por grande parte da Inglaterra; mas também Lisboa, mas também os EUA, a Austrália, a Itália e a Áustria…Mas também, sempre e sobretudo, o céu, numa abordagem ora mágica – entre o infantil e o metafísico -, ora científica, com precisão que imagino correctíssima, e que desconfio, será ponto de atracção certeiro junto de leitores dados às ciências, e a todos os curiosos dos mistérios cósmicos. Sobretudo jovens, sejam de que idade forem.

Porque o Principio da Atracção, fazendo lembrar os clássicos Adeus, quinze anos, de Claude Campagne ou Tão Longe de Sítio Nenhum, de Ursula K. Le Guin (lembram-se?), ao som de Absolute Beginners, por exemplo, é um romance especialmente adequado para os leitores jovens, e não apenas pela temática. Também pela sua simplicidade, pela linearidade da acção, pela suave visão pueril narrada em primeira pessoa por Laura – a jovem protagonista, à volta da qual gravitam, como corpos magnetizados, outros dois jovens ingleses e um americano, desde a pré-adolescência (tudo começa num Verão de 78) até à maturidade (algures no Verão de 1999).

Apesar desta ligeireza formal que poderá afastar leitores mais exigentes – e de uma certa envolvência burguesa, em que a vida decorre numa quase perfeita harmonia, sem grandes obstáculos, senão os pessoais, para o alcance dos seus objectivos -, o espírito que perpassa não é de frivolidade, tanto mais que a formação pessoal das personagens, que crescem ao longo da obra, valoriza o desenvolvimento de uma atenta consciência social, um olhar crítico, humanista, sobre si, o outro e o mundo. De modo que, passo a passo, as páginas amadurecem, num aprofundamento das tensões que harmonicamente acompanham o próprio crescimento dos 4 adolescentes.

Daí que o catalogar da obra como mera ficção para jovens seja certamente demasiado redutor. (Não que considere a escrita para jovens menor; pelo contrário, é importante e extremamente necessária, sempre e cada vez mais. E numa altura em que tanto se fala de Educação Sexual, não passará esta também, e muito, pela actividade reflexiva da leitura?). Potenciais leitores encontrar-se-ão também na geração que viveu este período fundador da vida entre os anos 80 e 90 (quando ainda se dançavam slows e as cartas não tinham o estilo telegráfico dos SMS). Ou, simplesmente, entre todos aqueles a quem apeteça uma história de amor e amizade, conduzida, com cientifico rigor, pela encruzilhada das estrelas.

Não terá a originalidade criativa nem o peso literário de obra candidata a um austero galardão da escrita, mas O Princípio da Atracção tem todos os condimentos para se tornar, também, um “princípio de atracção” pela leitura e pelo saber humanista.

E é, ainda, uma homenagem discreta e sincera ao Alentejo, ponto de partida para qualquer órbita intra ou inter-galáctica.

in Revista Alentejo, nº 1 – Maio 2004


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