O Princípio da Atracção — um romance de Teresa Direitinho

Ana Margarida Ramos
Diário do Minho, 31 de Março de 2004

O romance estreia de Teresa Direitinho apresenta-se como as “memórias” da protagonista – Laura – que reconstrói o seu percurso desde a adolescência até à idade adulta, englobando um período de tempo definido entre os Verões de 78 e de 99, percorrendo um conjunto amplo de espaços diversos, com especial incidência para o Alentejo (onde se inicia e se encerra a intriga do romance), que incluem referências a Lisboa, aos Estados Unidos, a Inglaterra e a outros países, configurando uma narrativa que apresenta afinidades com o “romance de formação”.

A sua estruturação de tipo circular, com o retorno definitivo e pacificado das personagens principais ao seu primeiro local de encontro, articula-se com a linearidade da intriga, acompanhando o crescimento e a evolução dos protagonistas seguindo o seu fio cronológico. O romance apresenta ainda, no que à construção e sobretudo ao estilo diz respeito, proximidades com o registo cinematográfico pela acessibilidade do discurso, a presença assídua do diálogo e o recurso constante a descrições sugestivas que promovem o visualismo.

A revisitação da adolescência e juventude das personagens, em especial da narradora, ocupa grande parte das quase quatrocentas páginas da obra, cujo ritmo acelera à medida que o tempo vai passando. O passado parece ser recordado com saudade e é recriado através da reconstrução de um retrato eufórico, notando-se a tendência para privilegiar os momentos de luz em detrimento dos de sombra.

A narradora não se limita a descrever acontecimentos e emoções, mas reflecte sobre eles e analisa-os, dando-lhes uma ordem harmónica e apresentando-os como determinantes para a sua situação presente. A juventude, tempo de incertezas e de muitas promessas, é, então, apresentada como a “terra de todas as oportunidades” e, no caso deste romance em particular, é o período onde surgem as amizades, os amores, os sonhos e as pequenas/grandes desilusões.

Esta visão idílica desse momento crucial do crescimento é reforçada pela preponderância dos espaços naturais e rurais, nomeadamente os alentejanos, que atribuem ao enredo um colorido muito especial. A vida no monte e nas suas redondezas é, pois, cenário preferencial para o romance, assim como para os encontros e desencontros das personagens que aí se juntam cada Verão, aceitando cruzar, durante breves mas intensos períodos de tempo, os seus destinos e as suas vidas tão diferentes, com origens claramente distintas, em Portugal, em Inglaterra e nos Estados Unidos.

Este é, pois, o cenário para uma intriga pautada pela sucessão de numerosos triângulos amorosos que são vivenciados com grande inocência mas também com muita profundidade pelas personagens principais nas suas demandas pessoais e colectivas do amor, da amizade e da realização profissional.

O título do romance, polissémico, aponta simultaneamente para a valorização da juventude como momento deter-minante na vida das personagens, uma vez que é o “princípio” de uma série de “atracções” que se revelarão decisivas no futuro, ao mesmo tempo que pode ser lido à luz da Ciência e tomado como uma eventual “lei” que explicasse a atracção dos corpos, da matéria, afinal das pessoas…

A sucessão e, até, a sobreposição de sentimentos que a narrativa traduz permitem uma reflexão mais atenta e demorada sobre a complexidade da personalidade humana, avessa a explicações físicas e racionais, num tempo e em locais que são particularmente próximos dos leitores a que se destina. Em cena encontramos uma geração que, nascida na segunda metade da década de sessenta do século XX, não tem as mesmas referências ideológicas da geração anterior, nem as mesmas limitações físicas e culturais, e procura o seu lugar num mundo em mudança, onde os limites e as fronteiras parecem não existir e onde a Ciência, ou simplesmente o conhecimento, se revela quase como um valor universal.

Não será, pois, por acaso que as leis da Física surgem de forma tão insistente como mote ou leit-motiv para a narração das vivências do homem/mulher comum em busca da felicidade e da realização plena. O optimismo que caracteriza as personagens resulta das inúmeras possibilidades que se lhes abrem, fruto de uma liberdade que é já tida como adquirida.

As batalhas que travam vão muito mais no sentido da sua afirmação individual e não geracional, podendo, de certa forma, O princípio da atracção ser lido como uma obra que “defende” uma geração tida como individualista ou pouco solidária, porque dá conta, a partir da experiência pessoal da narradora, dos seus sonhos e dos seus medos. Será também esta busca de referências num momento de fragmentação das ideologias que explicará, em parte, a presença constante, quase obsessiva, de insinuações de teor musical que acabam, inclusivamente, por interferir na própria intriga.

Assim, mais do que um romance com um fundo musical ou mesmo com banda sonora, podemos falar de um texto que encontra na música e nos textos das canções um interdiscurso privilegiado para definir a forma de pensar e de sentir de um grupo alargado de pessoas, dando-lhes causas comuns.

A música revela-se, pois, pela diversidade de estilos, épocas e países, uma linguagem verdadeiramente universal, capaz de comunicar o indizível e de presentificar o inimaginável.

Repleto, igualmente, de alusões literárias e culturais, de referências a escritores, obras literárias e artistas das mais diferentes áreas, este é também um romance de viagens e de viajantes, em sentido literal e simbólico, que peregrinam mundo fora à procura do “seu” pequeno lugar num vasto universo.

O Princípio da Atracção, Teresa Direitinho, Lisboa, Oficina do Livro, 2003

[2004-03-31 – 10:50:00] Ana Margarida Ramos (Prof.a da Universidade de Aveiro)


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