Vamos lá ver…

Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas, 14 de Novembro de 2003

Ora, vamos lá ver se é desta feita que aquieto a minha consciência! E convenhamos que está mais do que na hora!
É que havia dantes uns meses que tendo os mesmos trinta ou trinta e um dias do que os de agora, conseguiam perfazer uns anos em que eu arranjava tempo para cumprir propositos a que por gosto, ou por dever, me devotava.
Mas, o que é feito desse tempo elástico, eu não sei. Sei que continuo a agendar tarefas que gostaria de ter cumprido quando as agendei como desejáveis e prazerosas, e o “tal” tempo se escoou deixando-me a mágoa, quase o remorso, pelo que desejei ter feito e não consegui realizar.
Vamos lá ver, então, se de hoje não passa.
Tem isto que ver com três escritores. Dois de Elvas, a saber: – Amadeu Lopes Sabino, Maria do Céu Barradas, e um terceiro que não é natural da nossa cidade – António de Almeida Santos. (A que agora junto mais um nome de outra elvense: – Teresa Direitinho!)
Porque junto os nomes dos primeiros três que cito, é que, é o engraçado da história.
Vou contar:
Maria do Céu Barradas, escritora – com justiça – bem apreciada trouxe-me, há anos, de Bruxelas, um livro interessantíssimo da autoria de Amadeu Lopes Sabino – de que ele próprio me fazia presente – “A Homenagem a Vénus”.
Não fora a aguçada consciência da minha real dimensão, e, logo após a leitura que dele fiz, de imediato teria ousado escrever contando como e porquê me deliciou a obra citada, o que não cheguei a fazer porque o reconhecimento da dimensão do que nos encanta, por vezes, rouba-nos a ousadia da sua abordagem…
Acontece que hoje, ao retomar em mãos o livro e vendo os sublinhados que marcam profusamente as suas páginas e me recordam como me encantou a sua leitura, não resisti a vir recomendar que não percam a oportunidade de tomar conhecimento com este escritor, através da sua obra.
Ora, esta crónica acontece por outra razão que também vou contar.
Sabendo do meu apreço pela escrita de Lopes Sabino, ofereceram-me, posteriormente, de sua autoria: “a Lua de Bruxelas.”
Algum tempo depois também Maria do Céu Barradas fez chegar às minhas mãos o seu terceiro romance: “Os Encontros em Bruxelas” .
Fui sensível à coincidência de a capital da Bélgica estar presente no título de ambos os livros, que sendo de géneros completamente diferentes, cada qual, como é obvio, provoca emoções diferentes na forma de encantamento que proporcionam.
Entre eles não há semelhanças. Apenas Bruxelas como cenário lhes é comum.
Como e porquê Almeida Santos aparece nesta conversa? É pela coincidência de que tendo então, eu, adquirido “Quase Retratos”, livro desse autor, me deparei, logo após a abertura da obra com Almeida Garrett, como o primeiro era retratado.
Circunstância que me devolveu ao livro de Sabino (A Lua de Bruxelas) que duma forma apaixonante evoca a vida de Garrett nessa mesma capital. (O livro não é apenas isso!).
Pensei então juntar os três escritores neste comentário porque senti que era meu dever lembrar aos elvenses, ainda menos atentos do que eu, que agora, com o Natal à porta, o livro, um livro, é sempre um presente útil e de bom gosto.
Um presente inteligente que nos pode acompanhar toda uma vida… e nos pode sobreviver…
Então agora que a intelectualidade elvense tem a sorte de ter sido enriquecida com a estreia literária de Teresa Direitinho, com “O princípio da atracção”, obra que se lê de um só fôlego, quer pelo interesse que o entrecho suscita, quer pela sua qualidade literária, quer, ainda, pela fluidez e beleza da narrativa, e que, além do mais, como as obras de Céu Barradas e algumas de Amadeu Sabino, também refere, com frequência, locais que nos são familiares – quase me parece pecado que alguém os não conheça…
Penso que nunca mais irei a Juromenha sem levar no meu coração a lembrança do livro de Teresa…
Quando de “tanto” nos lamentamos, vale a pena conhecer aqueles de quem nos podemos e devemos orgulhar.

http://www.linhas.elvas.net/2003/2Sem/2735/opina_mjr.asp


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